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Vida Saudável e Feliz

Vínculos afetivos consistentes e duradouros são muito importantes para nossa saúde e felicidade. Dentre as ações para cultivar esses vínculos é essencial trabalhar nossas crenças que são a base a partir da qual compreendemos a vida. A crença no individualismo vem sendo inserida em nós há tempos. Às vezes de forma explícita, muitas vezes subliminarmente. A autorrealização, a satisfação dos próprios desejos, a obsessão pelos próprios direitos, enfim, uma vida autocentrada tornou-se para muitos um dogma, algo que não pode ser questionado. Essa crença é muito recente na vida prática da história ocidental. 

Quando se afirma que a repressão social dos desejos individuais é causa de sofrimento e disfunções mentais lança-se a base para o endeusamento de cada pessoa e o descrédito da vida social. Entretanto, a vida em sociedade não permite a plena realização do individualismo porque a pessoa como centro da vida social, como sujeito político existe na teoria, mas está sempre se quebrando contra os muros da vida social. Existem regras, normas, limites oficiais e não oficiais que exigem que cada um se adapte aos diversos contextos sociais.

O individualista busca extrair da vida – que vai perder – o máximo de satisfação, de realização, sucesso. Ele se isola o máximo possível de ser e estar com os outros. A crença de que eu posso viver sozinho, me realizar sozinho é simplesmente incompatível com a realidade humana durante a jornada da vida e no longo prazo, senão antes, desemboca na solidão não escolhida e muito sofrida. Ortega y Gasset afirmou que “eu sou eu e minha circunstância”. Ou seja, eu sou com os outros e com o mundo em que estou cada momento e na sequência dos dias. Mesmo eremitas que vivem isolados da vida social precisam negociar sua estadia com os donos das terras que habitam.

A superação do individualismo e sua substituição pela crença – eu sou eu e os outros e o mundo – está na base da saúde e da felicidade. Sem essa mudança de mentalidade e de crença não saímos do lugar. Podemos tentar várias estratégias, desenvolver inúmeras habilidades, estudar inteligência emocional, mas não avançamos porque simplesmente não conseguimos escapar da armadilha da autossuficiência. Deixar esse beco sem saída implica recusar a crença no individualismo e acreditar que eu vivo com os outros e no mundo, embora essa crença não me prive das responsabilidades que só eu posso assumir como, por exemplo, o autocuidado. Ninguém enfrentará os desafios por mim, nem estará no meu corpo para vivenciar e superar uma doença. Uma vez liberto do individualismo, posso começar a investir seriamente em como me relacionar com os outros a fim de criar vínculos afetivos consistentes e duradouros. Equilibrar minhas necessidades com aquelas que são comuns com os outros é essencial para a saúde e a felicidade.

A crença exacerbada no individualismo como vemos hoje é recente, mas seu início na história do pensamento vem de datas mais antigas, podendo remontar no mínimo ao século XVII. A crença de que a realidade da experiência está apenas na vida mental levou a reflexões que ferem a sensatez. O mundo externo com as outras pessoas – as circunstâncias – existe, ele não é apenas criação da nossa cabeça. José não se alimenta apenas com a mente, mas também com as mãos e a boca e a comida. Eu posso perceber o trânsito de veículos numa rua diferentemente de outra pessoa, mas ele está ali. Existem ruas, esquinas, semáforos verdes, amarelos, vermelhos, mão e contramão e assim por diante. Ou ostros estão ali, pedestres, motoristas, motociclistas, ciclistas.

A crença que extirpa a pessoa do mundo, seja ele social ou natural, como se ele não existisse ou não importasse é inerente ao individualismo atual com consequências frequentemente desastrosas. A pessoa sem conexões sociais é mais facilmente dominada e caminha para um fundo muito escuro chamado solidão não escolhida, que é um fator de adoecimento. Essa crença precisa ser trabalhada e desconstruída para que possamos construir relações pessoais valorosas para a nossa vida e a dos outros.